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A importância da Greve em Lenin e Trotsky

A greve é um fato. Junho de 2019 foi palco da greve geral contra a reforma da Previdência do governo Jair Bolsonaro (PSL), que foi, novamente, ferramenta da classe trabalhadora contra as decisões do atual Governo Federal, que age ao lado dos interesses do setor privado, devedor de mais de R$ 450 bilhões ao INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

A importância da greve tem uma explicação prática e simbólica: ela para a produção e une os trabalhadores. O presente artigo visa entender as visões de Vladimir Lenin e Leon Trotsky, dois ícones da prática política e teoria marxista, sobre a greve e analisá-la enquanto ferramenta estratégica no combate imediato da luta de classes e momento de congregação do trabalhador com outros de sua classe na luta concreta, ou seja, como ponto de coesão de classe.


Como nascem as greves
Na sociedade capitalista, a força de trabalho é mercadoria vendida pelo trabalhador aos proprietários dos meios de produção. Estes proprietários, por sua vez, contratam trabalhadores e os obrigam a produzir os artigos que suas empresas produzem para disponibilizar no mercado. O salário, pagamento do uso da força de trabalho, é um valor delimitado pelas necessidades do trabalhador em reproduzir suas condições de vida e tudo aquilo que é contabilizado acima disso é embolsado pelo dono da empresa, e “isso constitui seu lucro”.

Portanto, na economia capitalista, a massa do povo trabalha para outros, não trabalha para si, mas para os patrões, e o faz por um salário. Compreende-se que os patrões tratem sempre de reduzir o salário; quanto menos entreguem aos operários, mais lucro lhes sobra […] entre patrões e operários há uma constante luta pelo salário: o patrão tem liberdade de contratar o operário que quiser, pelo que procura o mais barato. O operário tem liberdade de alugar-se ao patrão que quiser, e procura o mais caro, o que paga mais.

No entanto, a liberdade do trabalhador em vender a força de trabalho é limitada por seu poder de influência dentro desta tensão entre empresário e trabalhador: “Se o operário exige melhor salário ou não aceita a sua rebaixa, o patrão responde: vá para outro lugar, são muitos os famintos que esperam à porta da fábrica e ficarão contentes em trabalhar, mesmo que por um salário baixo”.

Quando esta situação é levada ao seu extremo, com a existência de uma massa de desempregados e poucos empresários com grandes fortunas e controle sobre os meios de produção, o trabalhador isolado fica completamente desvalido frente ao capitalista e não pode opor nenhuma resistência à arbitrariedade patronal. A greve, assinala Lenin, tem início no momento em que os trabalhadores percebem que somente juntos podem ter alguma força para combater os empresários na luta, inicialmente, por melhores salários.

Segundo Lenin:

Em todos os países europeus e na América, os operários se sentem, em toda parte, impotentes quando atuam individualmente e só podem opor resistência aos patrões se estiverem unidos, quer declarando-se em greve, quer ameaçando com a greve.

Pois a greve é:

O instrumento de luta do mais fraco contra o mais forte, ou, mais exactamente, daquele que, no início da luta, se sente mais fraco contra aquele que considera como o mais forte: quando pessoalmente não posso utilizar um instrumento importante, tento pelo menos de evitar que o inimigo não se sirva; se não posso disparar com um canhão, retiro-lhe pelo menos o percutor. Tal é a ”ideia” da greve geral.

As greves significam o começo da luta da classe trabalhadora contra a estrutura da sociedade capitalista, geradora da situação real que possibilita e determina a existência da greve.

Ferramenta estratégica
Por sua vez, a greve é uma ferramenta na luta de classes. Ao comentar sobre a utilidade da greve no período da Revolução de Outubro, Trotsky observa que:

Se, em certas condições, os bolcheviques desencadeavam ousadamente greves no interesse da revolução, nas outras condições, sempre no interesse da revolução, eles refreavam os operários para não entrarem em greve. Nesse domínio como nos outros, não há receita pronta. A táctica das greves para cada período se integrava sempre numa estratégia global e o laço entre a parte e o todo era claro para os trabalhadores de vanguarda.

Isso, pois a greve tem uma função maior que somente parar a produção: ela também sinaliza que a produção está nas mãos da maior parte numérica da população, a parte de trabalhadores que vendem a força de trabalho. “Cada greve lembra aos capitalistas que os verdadeiros donos não são eles, e sim os operários, que proclamam seus direitos com força crescente”.

No entanto, a greve não é um remédio universal, diz Trotsky, há situações em que ela não consegue eficiência. Por exemplo, a greve é eficiente quando se inicia de uma luta contra o aparelho de Estado, mas, na situação da Alemanha no início da década de 30, quando o fascismo tentava se apoderar do poder de Estado, o uso da greve seria inócuo. Da mesma forma,

Estava fora de questão a greve geral durante a Revolução de Outubro. Na véspera da revolução, as fábricas e os regimentos na sua imensa maioria já se tinham associado à direcção do Soviete bolchevique. Chamar as fábricas para a greve geral nessas condições significava enfraquecer-se a si próprio e não enfraquecer o adversário.

Lenin também reprova a percepção da greve como ferramenta última de conquistas da classe trabalhadora na sociedade capitalista: ele admite que a força da união e da prática dos trabalhadores em greve pode fornecer uma imagem ilusória de que basta paralisarem suas atividades para conseguirem o que quiserem do Estado ou dos empresários, no entanto, a greve é somente um meio de luta de classes, uma ferramenta da classe trabalhadora. Quando se promove uma greve geral, é necessário ter fundos de ajuda para trabalhadores. Esses fundos são a representação de um meio de garantir a sobrevivência material de trabalhadores sem o salário garantido por conta de suas atividades políticas, neste caso, por conta das prática da greve. No entanto, em locais com baixa adesão da classe trabalhadora nas associações operárias, a chance dos fundos não existirem ou serem escassos é enorme, o que dificulta a própria existência de uma greve consistente e segura. A greve feita sem nenhum tipo de suporte prévio promovido pelas associações operárias é um passo inseguro na visão do trabalhador comum.

Daí não poderem os operários limitar-se, de modo algum, às greves e às sociedades de resistência […] as greves só são vitoriosas quando os operários já possuem bastante consciência, quando sabem escolher o momento para desencadeá-las, quando sabem apresentar reivindicações, quando mantêm contacto com os socialistas para receber volantes e folhetos.

A greve deve ter um objetivo funcional, deve servir para resultar em alguma conquista interessante aos grevistas durante o confronto para que, ao menos no momento imediato, haja uma vitória trabalhadora. Todo e qualquer orgulho de um prestígio pela feitura da greve deve ser desconsiderado: não há greve pela greve. A eficiência da greve dos meios de transportes coletivos está em atrasar toda produção que seria feita pelos trabalhadores que se utilizam destes meios para chegar até seus postos de trabalho e, ao mesmo tempo, frear o lucro nos dias da greve que o serviço de transportes conseguiria em operação normal.

Coesão de classe
Ao mesmo tempo em que a greve funciona como ferramenta de luta dos trabalhadores contra os possuidores dos meios de produção, ela também age na coesão social da classe:

Cada greve lembra aos operários que sua situação não é desesperada e que não estão sós. Vejam que enorme influência exerce uma greve tanto sobre os grevistas como sobre os operários das fábricas vizinhas ou próximas, ou das fábricas do mesmo ramo industrial. Nos tempos atuais, pacíficos, o operário arrasta em silêncio sua carga, não reclama ao patrão, não reflete sobre sua situação. Durante uma greve, o operário proclama em voz alta suas reivindicações, lembra aos patrões todos os atropelos de que tem sido vítima, proclama seus direitos, não pensa apenas em si ou no seu salário, mas pensa também em todos os seus companheiros, que abandonaram o trabalho junto com ele e que defendem a causa operária sem medo das provações.

A greve ensina que o operário não está só, diz Lenin. Ela faz com que o operário perceba que pertence a uma classe, a um grupo maior que tem os mesmos anseios que o dele. Mais que isso, o operário vê seus companheiros defendendo interesses que não são somente deles, mas do grupo, da classe trabalhadora.

Tal consciência de classe liberta o operário para a ideia do socialismo, da luta de toda a classe trabalhadora por emancipação, que deve ser conquistada através do conflito com os representantes do capital.

É muito frequente que, antes de uma grande greve, os operários de uma fábrica, uma indústria ou uma cidade qualquer não conheçam sequer o socialismo, nem pensem nele, mas que depois da greve difundam-se entre eles, cada vez mais, os círculos e as associações e seja maior o número dos operários que se tornam socialistas.

A coesão de classe promovida pela greve se traduz em aceitação do pensamento e da prática marxista, na medida em que este pensamento e esta prática são ferramentas da classe trabalhadora.

Considerações finais
É possível, a partir de Lenin e Trotsky, entender a importância da greve, de forma resumida, em dois pontos:

Ferramenta na luta de classes: a greve pode ser utilizada estrategicamente na luta por melhores salários. Sua prática ou ameaça funciona como argumento de força da classe trabalhadora, que mostra aos patrões quem verdadeiramente é essencial na produção;


Elemento de coesão de classe:
a greve é geradora de consciência de classe, na medida em que coloca o operário num grupo coeso, forte, em que são construídas relações de confiança e expectativa em relação ao futuro (a greve como passo ao socialismo, como perspectiva revolucionária).

 

Fonte: Site Colunas Tortas

Advocacia Scalassara & Associados

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A Advocacia Scalassara & Associados, enquanto marca, nasceu em 06 de junho de 1994, em razão de desdobramento de escritório anterior, que tivera início em 1982/3, do qual o advogado Carlos Roberto Scalassara era um dos titulares.